O poder da produção gráfica LGBTQUIAPN+ durante o regime militar brasileiro

A imprensa alternativa e os materiais impressos sempre foram armas contra a censura.

A censura era um instrumento central do projeto moralizador e "disciplinador" da sociedade.

Os produtos gráficos impressos carregam consigo a máxima de que "o meio é a mensagem" — tornando-se acessíveis a todos. O design gráfico editorial dá visibilidade a narrativas marginalizadas, preserva identidades comunitárias e desafia discursos hegemônicos.

Os impressos sempre foram essenciais para as mobilizações sociais. Afinal, como disse Voltaire:
“A revolução nunca será feita pelos tomos de vinte e dois volumes. São os pequenos panfletos de bolso que devem ser temidos.”

Cartazes de protesto de movimentos como o Black Panther Party e os fanzines feministas ajudaram a organizar a luta e fortalecer discursos necessários para enfrentar as autoridades.

O Lampião da Esquina foi o primeiro jornal produzido por homossexuais para homossexuais. Surgiu em 1978, quando o AI-5 ainda estava em vigor e muitos jornalistas considerados subversivos eram perseguidos, presos, torturados e mortos.

O apelo gráfico do jornal trazia fontes e imagens impactantes, dando nome e rosto à população LGBTQIA+. Usava o editorial com sarcasmo, reduzindo a autoridade militar e conservadora a uma posição de piada. O Lampião preocupava-se em divulgar sua causa, assumir a homossexualidade e reivindicar direitos humanos básicos. Rejeitava a imagem estereotipada do homossexual como um homem frustrado ou necessariamente afeminado.

Os impressos tornaram-se um meio estratégico de comunicação na construção da modernidade, servindo também como arquivo da vida em seus múltiplos aspectos. Fixam imagens e escritos que visam disseminar ideias e comportamentos.

Durante o regime militar, a violência do Estado contra homossexuais foi convertida em legalidade, legitimidade e, sobretudo, força policial. O Lampião enfrentou inúmeros desafios para continuar circulando, à medida que os militares se esforçavam para eliminá-lo — por meio de boicotes e até mesmo atentados a bomba contra donos de bancas que vendessem a publicação.

Volto a dizer: o meio é a mensagem.

A publicação impressa do Lampião da Esquina faz parte da memória da resistência LGBTQIA+ durante a ditadura, contribuindo para a visibilidade de sujeitos historicamente silenciados — que não podem ser condenados ao esquecimento.

O conservadorismo ainda aflige o Brasil, de modo que ideias excludentes continuam sendo promovidas no discurso político. A direita brasileira, por exemplo, segue articulando tentativas de derrubar o casamento homoafetivo, autorizado pelo STF há mais de 12 anos.

Por isso, o Lampião da Esquina permanece como um lembrete da necessidade de uma comunicação ideológica clara e direta — uma comunicação viabilizada pelo impresso.

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