CADEIRAS E TRENDS

Consumir design (moda, arte, arquitetura, música) é automaticamente inserir emoção nas tarefas do dia a dia. Cada escolha de um objeto está ligada a uma memória construída sobre algo e à criação de novas experiências.

Durante nossa vida, diversos modelos de cadeiras nos acompanham e nos fazem associar sentimentos e emoções a esses objetos — a cadeira alta de bebê nos restaurantes, a carteira da escola, a cadeira de balanço da sua avó, o assento em um estádio de futebol, a cadeira no dentista ou o modelo usado no bar mais próximo da sua casa.

Esse aspecto se relaciona à idealização de uma cadeira. Para olhos desatentos, passam como objetos despercebidos e estritamente funcionais, mas podem ser considerados parâmetros culturais de uma era — ditam ideias sociais, políticas e estéticas. Ao longo dos anos, as cadeiras foram os objetos de design mais reinventados da história.

Na Idade Média, eram consideradas artigos de luxo. Nesse contexto, a cadeira estava relacionada à hierarquia e, no campo da semiótica, ainda que em diferentes modos e níveis, expressava poder. Basta observar o trono dos papas.

No Renascimento, as cadeiras ganharam outro significado. Saíram dos palácios da monarquia para começar a habitar as casas de mercadores e burgueses. Nesses ambientes, as cadeiras tomaram formas diferentes.

As cadeiras são testemunhas da evolução dos interiores e do progresso de ferramentas, técnicas e materiais. Elas contam histórias sobre o lugar em que estão, o que é valorizado e o contexto social em que se inserem — é possível saber a posição social de uma pessoa apenas observando onde ela está sentada. No contexto do século XX, as cadeiras tornaram-se primordialmente objetos funcionais. O design modernista era limpo e simples, uma resposta à necessidade de produção em massa. Não havia mais espaço para ornamentação, e o trabalho humano era valorizado através da estrutura. Foi nessa época que o plástico surgiu, reinventando as formas de produção em massa.

A partir dos anos 60, as coisas começaram a mudar. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve uma necessidade de expressão e politização. As cadeiras se tornaram mais baixas, alinhando-se à ideia de denúncia à perspectiva burguesa, rompendo com a noção da cadeira como um objeto hierárquico, um símbolo de poder. Esse novo design refletia o contexto político da época — a Guerra do Vietnã, o fim da Guerra Fria, a recessão — e representava visualmente um tempo disruptivo. As cadeiras deixaram de ser meramente funcionais e começaram a contar narrativas.

Voltamos então ao princípio de que consumir design é inserir emoções no dia a dia. A riqueza de um objeto reside em seu poder de gerar emoções e, principalmente, em sua durabilidade. O bom design dura para sempre porque uma memória importante sempre permanece relevante. O hiperconsumismo e o mercado livre do capitalismo procuram sempre o moderno, enquanto a obsolescência programada sacrifica o gosto individual — e, com isso, nossa autenticidade se perde.

Consumir está relacionado à ideia de fazer parte de uma cultura ou subcultura, uma espécie de afiliação social por meio do uso de códigos. Quando abrimos mão disso em prol de um objeto 'na moda', nossa personalidade desaparece. As emoções cotidianas desaparecem e a vida se torna entediante, pois nos automatizamos em vídeos de 15 segundos. Assim como nossa personalidade, o bom design é atemporal.

Anterior
Anterior

O poder da produção gráfica LGBTQUIAPN+ durante o regime militar brasileiro